sexta-feira, 23 de outubro de 2026
Cidades

Iranduba mais que triplica focos de calor, mas mapas não confirmam chegada de fumaça a Manaus

Iranduba teve a maior alta percentual de focos de calor entre os municípios analisados pela NEX, enquanto o Amazonas registrou queda de 26,9% no bimestre. A posição das áreas queimadas e a circulação dos ventos, porém, não permitem confirmar a origem da fumaça observada em Manaus.
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Iranduba registrou a maior variação percentual de focos de calor entre os municípios analisados em um levantamento sobre as queimadas no Amazonas. O município passou de 192 detecções entre agosto e setembro de 2023 para 657 no mesmo período de 2026, alta de 242,2%.

O resultado ocorre em um cenário de queda no total estadual. Segundo estudo da NEX Hub de Análises Estratégicas, o Amazonas teve 65.610 focos de calor no bimestre de 2026, contra 89.758 em 2023. A redução foi de 26,9%, ou 24.148 detecções.

A diferença entre o comportamento do estado e o de municípios próximos de Manaus mostra por que a avaliação da fumaça na capital não pode ser feita apenas pela soma estadual. Ainda assim, os dados disponíveis não confirmam que os focos registrados em Iranduba tenham sido responsáveis por episódios de fumaça em Manaus.

Iranduba teve a maior alta percentual

O aumento registrado em Iranduba foi o mais expressivo em termos proporcionais entre os municípios destacados no levantamento. A cidade teve 465 detecções a mais no bimestre de 2026 em comparação com o mesmo período de 2023.

Manacapuru apresentou o maior crescimento absoluto, com 1.500 focos adicionais: foram 1.230 em 2023 e 2.730 em 2026, alta de 122%. Caapiranga também registrou avanço significativo, de 946 para 2.248 detecções, aumento de 137,6%.

Outros municípios considerados na análise tiveram os seguintes resultados: Itacoatiara passou de 1.710 para 1.962 focos, alta de 14,7%; Careiro, de 1.236 para 1.442, crescimento de 16,7%; Manaquiri, de 1.247 para 1.328, aumento de 6,5%; e Rio Preto da Eva, de 241 para 327, alta de 35,7%.

Também houve crescimento em Nova Olinda do Norte, de 992 para 1.282 focos, alta de 29,2%; Borba, de 1.550 para 1.771, avanço de 14,3%; e Urucurituba, de 457 para 1.192, aumento de 160,8%.

Alta regional contrasta com queda no Amazonas

Ao todo, 16 dos 62 municípios do Amazonas apresentaram aumento nas detecções entre os dois períodos comparados. Entre eles estão Iranduba, Manacapuru, Itacoatiara, Rio Preto da Eva, Careiro e Manaquiri.

Na região intermediária de Manaus, divisão territorial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que inclui uma área mais ampla que o entorno imediato da capital, o número de focos passou de 18.231 para 18.980. O crescimento foi de 4,1%.

Na região intermediária de Parintins, a alta foi de 3,8%, de 10.290 para 10.686 detecções. Os dados mostram que a evolução das queimadas ocorreu de maneira desigual entre as áreas do estado.

A própria Manaus também registrou aumento. A capital passou de 490 focos em agosto e setembro de 2023 para 557 no mesmo intervalo de 2026, crescimento de 13,7%. Por isso, a análise de possíveis emissões deve considerar também ocorrências dentro do território do município.

Ventos ampliam as possibilidades, mas não fecham a origem

O estudo da NEX cruzou os registros do Painel do Fogo do Sistema de Proteção da Amazônia (SIPAM) com informações territoriais do IBGE. A análise também consultou mapas do Windy para observar a orientação dos ventos em áreas próximas de Manaus.

Nas imagens examinadas, os traços de circulação atmosférica no corredor entre Parintins, a região de Urucará, Itacoatiara e Manaus apresentam orientação aproximadamente de leste-nordeste para oeste-sudoeste. Esse alinhamento é compatível com uma possível circulação de ar do setor leste em direção à capital.

Se as partículas estivessem se deslocando para oeste ou oeste-sudoeste, a fumaça de queimadas situadas nesse corredor poderia ser transportada até Manaus. Itacoatiara ganhou relevância nesse cruzamento por estar a leste da capital e ter registrado 252 focos adicionais no bimestre, alta de 14,7%.

Urucurituba e Boa Vista do Ramos também tiveram aumento no setor leste. O primeiro cresceu 160,8%, passando de 457 para 1.192 focos. O segundo passou de 690 para 1.022, alta de 48,1%.

Essas informações indicam áreas que podem ser acompanhadas, mas não comprovam que a fumaça produzida nesses municípios tenha alcançado Manaus. A confirmação exigiria dados sobre o sentido efetivo dos ventos e a trajetória das plumas no momento das ocorrências.

Posição de Iranduba exige outra configuração atmosférica

Embora Iranduba e Manacapuru estejam próximos da capital, a localização geográfica dos dois municípios precisa ser considerada na interpretação dos ventos. Eles estão em setores a oeste e sudoeste de Manaus.

Para que a fumaça dessas áreas se desloque até a capital, seria necessário haver circulação proveniente desses setores ou uma trajetória atmosférica capaz de conduzir as partículas até a cidade. O alinhamento observado nos mapas para o corredor leste não explica, por si só, uma eventual contribuição de Iranduba ou Manacapuru.

Essa diferença separa duas conclusões do levantamento. Os dados do SIPAM mostram onde houve aumento dos focos. Já os mapas meteorológicos ajudam a avaliar em quais condições a fumaça poderia se deslocar. Uma informação não confirma automaticamente a outra.

Setor sudeste também aparece no acompanhamento

A área entre Borba e Itacoatiara apresentou traços diagonais nas imagens analisadas. Caso o deslocamento ocorresse do sudeste para o noroeste, o fluxo poderia favorecer a aproximação de ar vindo de áreas ao sudeste de Manaus.

Borba teve crescimento de 1.550 para 1.771 focos, enquanto Nova Olinda do Norte passou de 992 para 1.282. Autazes e Careiro da Várzea, também considerados na avaliação geográfica desse setor, registraram queda.

Autazes passou de 4.372 para 2.829 detecções, redução de 35,3%. Careiro da Várzea caiu de 1.603 para 1.428, recuo de 10,9%. Mesmo com a diminuição, as duas localidades mantiveram quantidade relevante de registros.

Careiro da Várzea apresentou a maior densidade de focos por área municipal em 2026, com 543,5 detecções por 1.000 quilômetros quadrados. A densidade, porém, não mede diretamente o volume de fumaça produzido.

Queda estadual foi influenciada pelo sul

A redução de 26,9% no total do Amazonas foi puxada principalmente pelo recuo em municípios do sul que apresentaram grande número de detecções em 2023.

Lábrea passou de 10.486 para 4.094 focos, queda de 61%. Em Humaitá, a redução foi de 5.314 para 1.530, recuo de 71,2%. Canutama caiu de 3.644 para 1.013, baixa de 72,2%, e Boca do Acre passou de 5.080 para 2.107, diminuição de 58,5%.

Também houve redução em Novo Aripuanã, de 23,7%; Manicoré, de 46,6%; e Tapauá, de 68,9%. Apuí seguiu em sentido contrário e teve o maior total estadual em 2026, com 11.033 focos, contra 10.342 em 2023, alta de 6,7%.

O contraste entre as regiões explica como o total estadual pode cair enquanto áreas próximas de Manaus registram alta. A soma dos municípios, isoladamente, não identifica quais ocorrências contribuíram para um episódio específico de fumaça.

Imagens estáticas não medem fumaça nem qualidade do ar

As imagens do Windy utilizadas na análise não representam diretamente a concentração de fumaça ou a qualidade do ar. Uma das imagens estava na camada de temperatura; a outra mostrava a acumulação de vento.

O indicador de 18 nós, equivalente a aproximadamente 33 quilômetros por hora, refere-se ao ponto e à camada selecionados no mapa. Ele não deve ser interpretado como a velocidade atual do vento em Manaus.

Os traços brancos ajudam a observar o alinhamento do fluxo, mas a captura estática não permite identificar com segurança para qual lado as partículas se deslocam. Também não havia indicação legível de data, horário e configuração completa da previsão.

Além disso, os mapas não demonstram que o fluxo exibido correspondia às condições atmosféricas verificadas durante os incêndios registrados em agosto e setembro de 2026.

Comparação usa apenas agosto e setembro

O levantamento compara os meses de agosto e setembro de 2023 com o mesmo bimestre de 2026. Os dados de outubro de 2026 ainda não estavam disponíveis no material, o que impede uma comparação dos trimestres completos.

Em 2023, outubro acrescentou 31.782 focos. Com isso, o período de agosto a outubro chegou a 121.540 detecções, e outubro respondeu por aproximadamente 26,1% do trimestre.

O estudo contextualiza 2023 como um ano marcado por El Niño e seca severa. A comparação apresentada, contudo, mede a variação das detecções e não determina, isoladamente, a participação de fatores climáticos ou de ações de prevenção e combate.

Focos de calor não equivalem a incêndios individuais

Os números utilizados são detecções feitas por satélite e organizadas por município a partir do Painel do Fogo do SIPAM. Uma detecção não corresponde necessariamente a um incêndio individual. A mesma ocorrência pode gerar vários registros.

O indicador também não mede diretamente a área queimada, a quantidade de material consumido ou o volume de fumaça emitido. Por isso, o aumento observado em Iranduba aponta uma mudança no número de detecções, mas não permite calcular sozinho a intensidade das emissões.

Para identificar a origem da fumaça em cada episódio, seria necessário cruzar a localização e o horário dos focos com imagens das plumas, dados meteorológicos do mesmo período e trajetórias do ar em diferentes altitudes.

O levantamento sustenta a hipótese de que o crescimento dos focos em parte do entorno de Manaus e no setor leste pode contribuir para episódios de fumaça quando a circulação atmosférica favorecer o transporte até a capital. A confirmação, porém, depende de uma análise específica de cada ocorrência.