A vida nas comunidades ribeirinhas de Iranduba é organizada pelo movimento das águas. Nas áreas próximas ao rio Solimões, famílias vivem em uma paisagem de várzea sujeita a enchentes, vazantes e períodos de seca. O rio influencia o local das casas, o calendário de plantio, a criação de animais, o transporte e até a rotina de acesso a serviços básicos.
Esse modo de vida não é uniforme. Há diferenças entre as comunidades, conforme a distância da sede municipal, a presença de estradas, o acesso à energia e à escola, as atividades econômicas e as condições do terreno. Ainda assim, os estudos realizados no município mostram um traço comum: a dependência cotidiana dos recursos hídricos e a necessidade de adaptação permanente às mudanças do ambiente.
O território entre o rio Solimões e a terra firme
Iranduba está situado na região próxima ao encontro dos rios Negro e Solimões. Parte das comunidades rurais do município ocupa áreas de planície de inundação, conhecidas como várzeas. Nesses locais, o nível do rio se altera ao longo do ano e interfere diretamente na ocupação do espaço.
Uma pesquisa publicada em 2018 analisou 11 comunidades localizadas na margem esquerda do baixo rio Solimões, em Iranduba. O levantamento incluiu localidades como 7 de Setembro, Divino Espírito Santo, Nossa Senhora de Fátima, Santa Luzia da Ilha do Baixio, Santo Antônio do Furo do Paracuúba, São Francisco, São João Batista, São Sebastião, Costa do Catalão, Santa Luzia e Bom Jesus do Paraná do Xiborena.
O estudo foi realizado entre agosto de 2017 e março de 2018, com entrevistas com lideranças, moradores antigos e professores. Os pesquisadores observaram como as comunidades organizam o espaço e desenvolvem suas atividades de acordo com a dinâmica do Solimões. A pesquisa também registrou problemas relacionados ao abastecimento de água potável e à erosão das margens.
Casas e estruturas adaptadas à cheia
As palafitas são uma das principais formas de adaptação encontradas nas comunidades de várzea. Construídas acima do nível do solo, elas permitem que as famílias permaneçam em áreas sujeitas à subida das águas. A altura das casas varia conforme a experiência dos moradores e as condições de cada margem.
A adaptação, porém, não elimina os riscos. Em anos de cheia mais intensa, a água pode alcançar o assoalho das residências. O deslocamento de embarcações também produz banzeiros, ondas que atingem as margens e podem causar danos a casas e estruturas construídas próximas ao rio.
Além das residências, outros equipamentos comunitários precisam ser ajustados. Igrejas, campos de futebol, postes de energia, estradas e áreas de convivência podem ser transferidos quando a margem recua ou quando o avanço da água compromete a segurança do local.
Na comunidade flutuante do Lago Catalão, em Iranduba, pesquisas de arquitetura e urbanismo identificaram uma forma ainda mais específica de adaptação. O assentamento é formado por estruturas sobre a água que podem ser reorganizadas conforme o regime dos rios. As moradias e os espaços de uso comum se articulam de maneira flexível, acompanhando as mudanças entre cheia e estiagem.
O calendário do trabalho acompanha o nível da água
Na várzea, o período do ano influencia diretamente as atividades produtivas. Durante a vazante e a seca, quando o solo fica exposto, os moradores aproveitam os terrenos para plantar. A fertilidade dessas áreas está relacionada aos sedimentos carregados pelo rio e depositados durante as cheias.
Entre os cultivos registrados nas comunidades estudadas estão alface, cebolinha, cheiro-verde, couve, mandioca, pepino e pimenta. Em muitos casos, trata-se de uma produção de ciclo curto, porque o retorno da água limita o tempo disponível para o cultivo.
A comercialização depende do transporte. A produção pode ser levada de barco para a sede de Iranduba ou para Manaus. Moradores que não dispõem de veículo próprio, no entanto, podem depender de comerciantes responsáveis por comprar e transportar os produtos. Essa intermediação facilita o escoamento, mas também reduz a autonomia dos produtores na negociação.
A criação de gado e de outros animais segue lógica semelhante. Quando os campos da várzea estão secos, os animais aproveitam a pastagem natural. Com a subida do rio, o gado precisa ser levado para áreas de terra firme ou acomodado em estruturas suspensas, conhecidas regionalmente como marombas.
A pesca também faz parte do cotidiano, embora nem sempre seja a principal fonte de renda. No levantamento sobre as comunidades do Solimões, os peixes eram destinados principalmente ao consumo das famílias. O excedente podia ser vendido em pequena escala, mas a atividade não substituía a agricultura e a criação de animais como base econômica de muitas localidades.
Transporte: o rio como estrada
O deslocamento entre as comunidades e os centros urbanos depende da combinação entre vias terrestres e fluviais. Em parte do ano, algumas localidades podem ser alcançadas por estradas vicinais. Durante a enchente, porém, trechos ficam alagados ou apresentam condições ruins de tráfego.
Por essa razão, o barco continua sendo um meio importante para chegar à sede de Iranduba e a Manaus. A navegação permite transportar pessoas, alimentos, ferramentas e produtos agrícolas. Também é essencial para o acesso a serviços que não estão disponíveis nas comunidades, como atendimento médico, compras e procedimentos administrativos.
A Ponte Jornalista Phelippe Daou, inaugurada em 2011, alterou a relação entre áreas rurais, Iranduba e Manaus, sobretudo para os moradores que possuem acesso a veículos. Ainda assim, o transporte rodoviário depende das condições das estradas e do período do ano. Quando as vias ficam submersas, o deslocamento por água volta a ser a alternativa mais importante.
Água em abundância, mas nem sempre própria para consumo
Um dos principais contrastes da vida ribeirinha é a presença de água por todos os lados e, ao mesmo tempo, a dificuldade de acesso à água potável. A água do Solimões é barrenta e carrega grande quantidade de sedimentos, o que impede o consumo direto.
Na pesquisa realizada nas 11 comunidades da costa de Iranduba, nenhuma possuía um sistema eficiente de abastecimento de água. Para beber e preparar alimentos, moradores recorriam à compra de garrafões na sede do município ou à aquisição de água de pessoas que dispunham de poços em áreas de terra firme.
Para outras tarefas domésticas e para a irrigação das plantações, a água do rio era captada com bombas. A solução atende parte das necessidades, mas não resolve o problema do tratamento e da segurança do consumo. Em áreas de várzea, a instalação de poços também exige cuidados, porque o nível do rio pode alcançar essas estruturas e aumentar o risco de contaminação.
As terras caídas mudam o desenho das comunidades
As margens do Solimões estão em transformação constante. O fenômeno conhecido como “terras caídas” corresponde à erosão fluvial das margens. A água remove porções do solo, transporta sedimentos e altera o contorno do terreno.
Para os moradores, as consequências são concretas. Casas, plantações, estradas, postes, igrejas e campos de futebol podem precisar ser recuados. Em algumas comunidades, a perda de terra reduz gradualmente o espaço disponível para moradia e produção.
O problema também afeta a memória e a identidade dos moradores. A área onde antes havia uma casa, um roçado ou um espaço de convivência pode desaparecer no leito do rio. Mesmo diante do risco, muitas famílias preferem permanecer na várzea, onde estão suas relações de parentesco, suas atividades produtivas e suas referências de vida.
O estudo sobre a costa de Iranduba identificou comunidades em que a erosão provocou deslocamentos para áreas de terra firme ou para Manaus. Nesses casos, a mudança não ocorre necessariamente por escolha econômica, mas pela perda gradual das condições de permanência na margem.
Comunidade, parentesco e organização coletiva
A vida ribeirinha também é sustentada por relações de vizinhança, parentesco, compadrio e ajuda mútua. As associações de moradores e produtores funcionam como espaços de organização, reivindicação e negociação com o poder público.
Nas comunidades, igrejas, escolas, campos de futebol e centros comunitários contribuem para a convivência. Festas religiosas e atividades comunitárias mantêm vínculos entre as famílias e ajudam a preservar memórias locais. Essas práticas dão dimensão social a um território que, visto de fora, pode parecer apenas disperso entre rios, lagos e áreas de floresta.
Na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Negro, que inclui comunidades de Iranduba, pesquisas identificaram diferentes formas de organização e de produção. Terra Preta, por exemplo, foi descrita com atividades agrícolas, produção de frutas, hortaliças, tubérculos e farinha. São Tomé aparece associada à pesca, ao artesanato e ao turismo, enquanto outras localidades combinam roçado, criação de animais e extrativismo.
Essas experiências mostram que as comunidades ribeirinhas não vivem apenas de uma atividade. A chamada poliprodução — combinação de agricultura, pesca, criação, extrativismo, artesanato e serviços — reduz a dependência de uma única fonte de renda e permite enfrentar as mudanças impostas pelo ciclo das águas.
Um modo de vida entre permanências e mudanças
A proximidade com Manaus e a melhoria de algumas conexões rodoviárias aproximaram Iranduba de dinâmicas urbanas e de novos mercados. Ao mesmo tempo, a expansão urbana e as transformações econômicas alteram paisagens, relações de trabalho e formas de ocupação do território.
Mesmo com essas mudanças, o rio continua no centro da vida das comunidades. Ele fornece água para atividades domésticas e produtivas, oferece caminhos, influencia a alimentação e determina o ritmo do calendário agrícola. Também impõe limites, sobretudo quando a cheia interrompe estradas, reduz as áreas de cultivo ou aumenta a distância até os serviços públicos.
A vida nas comunidades ribeirinhas de Iranduba, portanto, não pode ser compreendida apenas como adaptação às dificuldades. Trata-se de uma forma de organização social construída ao longo do tempo, baseada no conhecimento dos ciclos naturais, no uso diversificado dos recursos e na cooperação entre moradores. O mesmo rio que sustenta a produção e a circulação também pode provocar perdas, deslocamentos e insegurança.
Compreender essa realidade exige observar as duas dimensões. As comunidades são espaços de trabalho, memória, sociabilidade e identidade, mas também enfrentam problemas de abastecimento, transporte, infraestrutura e erosão. Entre a cheia e a seca, os moradores reorganizam suas casas, seus cultivos e seus caminhos para continuar vivendo às margens dos rios de Iranduba.
Fontes consultadas
As informações sobre as comunidades do baixo Solimões foram baseadas no estudo Comunidades rurais ribeirinhas e as águas do rio Solimões no município de Iranduba, publicado na Revista Brasileira de Meio Ambiente, e no artigo A comunidade flutuante Lago Catalão – Iranduba AM, da Revista de Morfologia Urbana. Também foi consultada a pesquisa sobre comunidades ribeirinhas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Rio Negro.








